Não sou sociólogo, nem especialista em internet (isso tem nome? Internólogo?). Portanto, a função deste texto não é fazer nenhum tipo de afirmação acerca do tema trabalhado. Apenas buscar, superficialmente, uma visão que proponha algum tipo de reflexão simplificada sobre assuntos que demandam tanto conhecimento para serem debatidos.
As revoltas populares que se iniciaram na Tunísia, no começo do ano, assustaram o mundo. Até porque fazia tempo que não se tinha uma noticia com tanta repercussão mundial acerca de uma manifestação popular contra um governo ditador. E, por outro lado, porque o mundo árabe já é, por si só, algo que assusta o mundo ocidental. Mas o que começou na Túnisia e logo se espalhou, a parte das condições sociais e políticas que permitiram uma onda tão grande de protestos, tem um ponto fundamental e interessantíssimo: a maneira como o acesso a internet muda tudo.
Se é muito estranho para nós ver como o mundo árabe vive, deve ser igualmente estranho para eles verem como nós vivemos. E, por muito tempo, isto não significou grandes problemas, afinal de contas nós estávamos aqui, eles lá e o petróleo era controlado por pessoas amigáveis aos EUA. Isso era suficiente para uma co-existência, mesmo que nem sempre pacífica, mas consideravelmente separada, graças a um pensamento islâmico de oposição ao “imperialismo ocidental”. Claro que o capitalismo chegou no mundo árabe e teve enorme influencia, mas foi uma sociedade que, de modo geral, conseguiu se manter mais tradicional, em vários aspectos.
Mas, numas questão de anos – uma década, talvez menos – isso tudo muda. Algum louco resolve interligar todos os computadores do mundo! E outro louco, resolve criar o facebook! Outro, cria o Twitter! E um grupo de estudantes nerds acaba criando o Google! E, de repente, todo o espaço entre essas duas culturas começa a se esfumar. A distância de milhares de kilômetros é viajada na velocidade da luz por bites de informação. E, de repente, em um local que se aproxima do “livre” (a internet), as duas culturas tem um espaço para se encontrar, se olhar, e não tacar uma bomba em cima da outra! Simplesmente se estranhar e tentar entender aquela coisa estranha que antes era muito longe dali. Ok, utopias a parte e sem me empolgar muito, é muito bonito pensar como a internet abre uma porta de comunicação entre culturas tão diferentes, e, reforço, mais do que apenas abrir uma porta, convidar para entrar e conhecer.
Talvez tenha sido nesta conversa cultural, que as coisas tenham começado a mudar. Talvez uma cultura tenha muito a aprender com a outra, e uma das coisas que os árabes começaram a aprender conosco foi que, na maior parte do mundo ocidental, as ditaduras acabaram. Talvez eles nunca nem tenham pensado nisso! E talvez tenham gostado da idéia de não ter um ditador!
E ai entra outra coisa bonita da internet: as redes sociais. Enquanto 33% do facebook só tem besteira, 33% é um diário com fotos e 33% é prostituição, sobra o 1% que nos interessa. É fácil, mais MUITO fácil, trocar idéias e combinar coisas. E quando há revolta, é muito fácil que esta revolta se espalhe! Basta dar um twitter e postar no seu mural do facebook! Você já avisou mais de 100 pessoas, que provavelmente vão se revoltar, e avisar mais 100. As pessoas começam a perceber suas carências. Do mesmo modo, elas tem em suas mãos uma poderosíssima arma de organização. Basta criar um protesto no facebook, e clicar em “convidar amigos”. Foi isto – ok, algo mais complicado, mas basicamente isto – que ocorreu na Tunísia. Uma grupo de estudantes, insatisfeitos, resolveu protestar. E eles conseguiram despertar o sentimento de indignação na sociedade. E eles foram as ruas indignados. E todo mundo ficou sabendo, e também ficou indignado. Porque as carências eram tão grandes e estavam tão a mostra, que é fácil se indignar.
Daí surge o fato mais interessante disso tudo: o que move a população é a indignação. Não há uma corrente política teórica pronta para assumir o lugar, ou seja, a luta não é para introduzir uma democracia ocidental nem um comunismo nem nada do gênero. A luta é somente uma movimentação de uma população indignada. É algo realmente popular, que carece de heróis políticos ou mesmo guerreiros – o herói é o próprio povo. Talvez seja, realmente, o povo dizendo NÃO. Se na revolução francesa a burguesia se armava para tomar o poder e na revolução Russa os marxistas ajeitaram tudo, o que será de uma revolução movida unicamente pela indignação, pela vontade de mudar para algo melhor, por uma voz que diz “não” mas não propõe o que deve ser?!
Batendo nas limitações conceituais sobre o mundo árabe e revoluções, basta dizer que há inúmeros caminhos possíveis para este novo tipo de revolução.
Mas vale destacar que as mobilizações sociais não ocorrem apenas do outro lado do mundo. Aqui, no Brasil, elas começam – claro que com menos força, pois o brasileiro tem toda uma cultura ant-protestos e carências bem menores do que os árabes – mas já mostram que vieram para encher o saco dos políticos. Nunca o movimento para derrubar o aumento das tarifas de ônibus foi tão grande em São Paulo e em varias outras cidades, e tais protestos são 100% facebook. Ta tudo lá, e quem fica sabendo quase sempre fica sabendo por lá. Lembro-me também que quando os senadores se deram o aumento de 62% nos salarios, a indignação correu solta pelas paginas do facebook. Abaixo assinado virtual, frases irônicas sobre o assunto com vários “likes” do facebook, trend topic no Twitter Brasil, e por ai vai. E este movimento resultou em mobilização – uma mobilização pequena, mas que aconteceu em nível nacional. Foram diversos pequenos protestos em varias capitais, que infelizmente perderam o fôlego, mas que poderiam ter tomado outro rumo.
Bom, fica ai uma tendência. O facebook ainda vai dar muita dor de cabeça para políticos brasileiros. Porque agora, quando o povo se indignar com as palhaçadas políticas, existem mecanismos fáceis de transformação da indignação em movimento social.
Exagerado? Talvez. Mas não custa sonhar um pouco...
Nenhum comentário:
Postar um comentário