Quando você é um pedestre de um destes bairros classe-média lotados de prédios – Perdizes, Pompéia, Higienópolis, e por ai vai – você se depara com alguns desafios. Primeiro, indubitavelmente, você vai se deparar com alguma calçada sendo reformada. É impressionante – quase fantasmagórico – a quantidade de reformas em calçadas que são feitas diariamente. E mais impressionante ainda: não importa quantas forem feitas, as calçadas continuaram irregulares e ruins de andar. É uma regra, tal como o fato de que nós não devemos andar pelados pela rua, de que calçadas tem de serem tortas, mal feitas e lotadas de obstáculos, que variam do cocô do cachorro (ai que raiva!) até um enfeite de plantas ridículo que esta ali só pra ocupar espaço mesmo.
Mas, no momento em que abandonamos a calçada, a coisa piora, pois significa que teremos que atravessar a rua.
Sabe aquela lei que existe, e todo mundo sabe que existe, mas ao mesmo tempo a sociedade decretou que ela não será cumprida? É exatamente isto que acontece com a lei que determina que, na faixa de pedestre, a preferência é do... PEDRESTE! Mas, sejamos sinceros, querer que CARROS parem para PESSOAS atravessarem só porque tem algumas listras no chão, é uma utopia que a gente ouve falar de lá da Europa, mas que sabe que o brasileiro, com todo seu orgulho de ser brasileiro, nunca vai cumprir.
Quanto as leis naturais – que a natureza teimou em impor – essas nós não podemos escapar. E é ai que surgem as ruas – quero dizer – os penhascos da rua Caiubi, da rua Paris e companhia. Enquanto a gente sobe, embaixo do sol e desviando de baratas mortas e cocos de cachorro, a gente se sente realmente pagando os pecados. Quando você finalmente chega la em cima, você tem certeza que, se depender de você, Deus perdoou o crime de Adão e todos os outros humanos.
Mas nem tudo esta perdido. Digo isto porque sou pedestre nato – ando de ônibus e vou a pé para a escola – e venho percebendo um negócio muito interessante. Carros são controlados por pessoas! Assim como nós, pedestres! Então, tratando-se da mesma cultura, é possível – pasmem – contato social!
E me arrisco a dizer mais. Me arrisco a dizer que, 90% das vezes, um contato social inicialmente positivo tende a ser retribuído com outro igualmente positivo! A física errou: positivos se atraem. Se de repente você quer atravessar a rua na faixa e tem vários carros andando devagar nela, tente olhar para o motorista e sorrir. 90% do tempo, este vai deixar você passar! Não é genial?
Acredito que minha descoberta revolucionou meu papel social de pedestre. Agora, chego até a mandar beijos para motoristas que se mostram muito gentis. Por que aos poucos a gente descobre que fazer um favor ou ter um favor feito, da uma certa satisfação (nem que ela seja 100% irracional).
Então sugiro a você que, quando for um pedestre, sorria mais, tente atravessar na faixa e acredite mais na possibilidade de contato social. Agradeça e, quando der, faça um favor. 90% das vezes, da certo. Mas é 100% melhor que ficar bravo e sair xingando todo mundo.
Abaixo o mau-humor no trânsito!!!
Um outro título bom para essa crônica seria: "De como as relações sociais contradizem as leis da física"
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