segunda-feira, 16 de maio de 2011

Cadê o chão, a parede, as pilastras?

                “Tudo o que é solido se esfuma no ar”. Anos depois que esta frase foi escrita e publicada dentro do manifesto comunista, o meio acadêmico e intelectual começou a perceber o quanto ela significava. É a frase que caracteriza a modernidade, a nova sociedade que nasce pós-revoluções e pós segunda guerra.
                Todas as regras que moviam a sociedade, toda a base na qual as regras estavam pautadas, assim como os pilares que sustentavam estas bases mudam e se modificam. Surgem novas maneiras de alienação social, surge uma nova forma de produção, surge um capitalismo expansionista que conquista o mundo com a facilidade que um pastor alemão se livra de um pincher.
                Não é preciso ir longe para vermos isto tudo. Basta olhar para a sociedade brasileira. Basta olhar para sua casa, ou a casa dos seus amigos.
                O senso do IBGE revelou um dado brasileiro que caracteriza esta fase de transição que vivemos – e que é característica da modernidade –, e que dela traçaremos um caminho. O fato é que o Brasil, em se tratando de matrimônios, bateu 2 recordes opostos: ocorreu tanto o recorde de casamentos quanto o recorde de divórcios. Nunca antes tantas pessoas se casaram; nunca antes tantas pessoas se separaram.
                Como pode dados opostos subirem juntos? Não seriam eles inversamente proporcionais? Alguns podem alegar que é meio obvio: se há mais casamentos, há mais divórcios, pois mais gente esta casada. Mas se pegarmos o numero de divórcios por 1000 casados hoje, ele será muito maior do que antigamente.
                E nem precisava de IBGE para saber disso. Pegue um adolescente de classe média de hoje em dia. 50% de chance dele ter pais separados (pelo menos essa é a estatística de minha classe).
                Afinal de contas, o que representa o casamento? O que representa a família? Historicamente, aceita-se o casamento como um pacto social que misturava as famílias criando assim diversidade e alianças, pactos. Isto se mostra, por exemplo, nos casamentos de príncipes e princesas entre os diferentes reinos, na época medieval, que era uma maneira de aumentar o poderio de uma família ao misturar duas famílias reais. Posteriormente, o casamento tomou o lugar religioso: é o sagrado matrimônio do catolicismo, que constitui a base da sociedade: a família.
                Mas, de repente, chega a modernidade. Tudo o que é solido se esfuma no ar. A religião, de repente, começa a perder espaço para a ciência, o consumo, entre outras formas de alienação. Os ideais, princípios, as morais religiosas começam a perder força. Ainda presentes na sociedade, elas têm suas maiores bases em gerações mais velhas, e segue a tendência de diminuir cada vez mais. O discurso religioso perde força; as aulas de catolicismo começam a esvaziar; os jovens cada vez mais preferem render-se a sociedade do espetáculo, que promete orgasmos a toda hora, do que aceitar o “velho e chato” discurso religioso. O conservadorismo da Igreja, talvez, ache dificuldades em acompanhar a história.
                Vivemos o início do vácuo, ou talvez o inicio de sua intensificação. O que tomará o lugar da Igreja? Se o consumo e o espetáculo oferecem soluções para muitos problemas, eles não podem tomar ocupar todo o vacuo: faltam neles princípios, morais, objetivos. Falta algo que de significado a vida e que de rumo a nossas ações. Por mais que todos se rendam ao imperativo do gozo – consuma, goze, consuma mais, goze mais, consuma consuma consuma consuma cosumaaaaaaaa – os recordes em venda de antidepressivos e a grande valorização e demanda por psicólogos mostra que não adianta só consumir. Em uma sociedade contraditória no mendigo de cada esquina, falta algo que signifique o consumo e a vida.
                É desse vácuo que se origina a contradição dos números de casamentos e divórcios. As pessoas ainda se casam: acreditam no amor, acreditam na família, e tem ainda algum resquício da moral da Igreja. Mas o casamento é a certeza da entrada na vida adulta – em uma sociedade que privilegia o adolescente e a juventude como ícones. O negócio é ser jovem, livre, cair na balada, se alienar com música, ecstasy, maconha, jogos, e tudo o mais que nos distrair deste mundo e nos fizer gozar. E, ao ter este imperativo repetido inúmeras vezes, as bases do casamento se rompem – não existem mais as bases que o sustentavam – elas se esfumaçaram, desapareceram no ar.
                Você tem visto TV ultimamente? Percebe o numero de propagandas que mostram a traição dentro do casamento como algo natural, e pior, engraçado? É o cara que liga pra mulher e sem querer fala que vai na balada; é o marido que chega em casa e não vê os 10 amantes da mulher fugindo. Tudo isto já está aceito no meio social: esperta é a mulher que da pra 10 caras ao mesmo tempo, e idiota é o marido que segue o casamento sem trair. Esperto é o cara que cai na balada quando a mulher não tá. E olha que engraçado, haha, sem querer ele falou pra ela no telefone! >.<
                Ok, fui pretensioso e egocêntrico durante todo o texto. Adimito isto. Mas existe, nesta construção que fiz acima, discussões e teorias interessantes, que merecem ser percebidas, discutidas e pensadas por cada um, e não apenas pelos filósofos que falam com palavras complicadas nos livros acadêmicos.

Um comentário:

  1. Ok!!! Belo texto: denso, provocador, vigoroso. Toca em questões deveras importante, mas, pra você pensar: o chão, as paredes e as pilastras podem ser construídos de diferentes maneiras e entre a banalização da instituição casamento e seu ideal burguês de tradição, família e propriedade, há varias possibilidades!! bj

    ResponderExcluir