quarta-feira, 25 de maio de 2011

A hierarquia

Lily era ema cadela golden retriver. Vivia no bairro de Higienópolis, bairro chique da elite paulistana, muito embora ela mesma não soubesse disto – sabia ela apenas que aquele portão alto, com um cheiro muito peculiar que misturava ferro, um outro pigmento qualquer e, claro, o seu cheiro, era o lugar que os humanos chamavam de “casa”. Quando sentia o cheiro de algum outro cachorro, Lily sentia-se brava, e logo recuperava o espaço perdido.
                Sabia ela também que o cheiro de vários adolescentes e suas mochilas, que estudavam ao lado; daquela grande arvore que cheirava bem e, as vezes, derrubava uma fruta perto dela; dos porteiros que estavam sempre ali na entrada e abriam o portão para ela; todos aqueles cheiros formavam sua rua. Tinha ainda os cheiros que Lily não gostava, como o do bueiro (claro que Lily não fazia idéia que aquilo era um bueiro).
                Mas Lily era muito astuta. Ela conseguia se lembrar de todos os cachorros que moravam ali perto dela pelo cheiro. E sempre que percebia a aproximação de um deles, ela logo começava a balançar o rabo. Queria cheirar, brincar, conhecer, ver, latir, pular, perseguir e balançar seu rabo junto com o outro cão. Ela pulava freneticamente, impulsionando seu corpo para frente, mas era barrada por um fio que Lily odiava e que segurava seu peito. Era um fio que sua Dona prendia nela sempre que iam passear. Pouco sabia ela que aquele fio chamava coleira.
                Lily não sabia, nem poderia com sua percepção de cão, mas para os humanos sua Dona tinha classe social, etnia, e sobrenome conhecido. Dona Alda, como era conhecida – e Lily sabia disso vagamente, já que suas experiências haviam conectado o nome a pessoa – era um dama herdeira – muito endinheirada e vivendo de renda. De humanos, Lily também conhecia Antônio, que era o porteiro do prédio, João, que era o sobrinho de Alda e estudava ao lado, o Zé, que era um cara da padaria que fazia carinho nela, e alguns outros. De cachorro, Lily conhecia um com cheiro engraçado, outro com cheiro forte, um outro que era meio doce. Todos era do tamanho de Lily, e da mesma raça.
                Claro que ela não sabia da parte do sobrinho, da padaria, do porteiro. Ela conhecia apenas os cheiros.
                Mas, enquanto passeava, Lily passava por um outro ser. Ela sabia que não era um cachorro, não cheirava como um. Mas, mesmo com sua visão preto e branco, que transforma o mundo em borrões de cinza com contornos, Lily sabia que ele não era humano. Talvez algo de seu cheiro fosse semelhante – e isso por muito tempo a enganou – mas agora ela tinha certeza, pois nenhum humano era daquele jeito – ficava apenas deitado ou sentado na rua.
Seu cheiro era forte, e Lily desejava que ele fosse ao pet shop tomar um banho, como ela fazia, para depois ser escovada, e sair dali com uma fitinha presa na cabeça. As vezes, ela ganhava até uma massagem! Mas ela sabia que, se aquilo não era um cachorro, ele não poderia ir num pet shop. Apenas cachorros como Lily podiam fazer isto. Pet shop para aquele ser estava completamente fora de questão; fora de alcance.
Mas Lily desejava que ele tivesse uma Dona como a dela, que lhe desse colo, comida, um lugar quentinho para dormir, visitas ao pet shop, e biscoitos quando ela merecia. Porque será que ninguém queria aquilo? Lily não sabia. Mas também não importava: ela destinava 5seg de sua atenção para a figura ali no chão, para então continuar sua caminhada. No caminho, se chorasse bastante, talvez ainda conseguisse que sua dona a comprasse um pão de queijo quentinho da padaria. E como ela gostava de pão de queijo.
E Lily podia não saber que aquilo chamava pão de queijo, e que o lugar chamava padaria, e que o bairro chamava Higienópolis. Podia também não saber que aquela figura chamava-se mendigo. Não sabia, alias, que todas as figuras semelhantes levavam este mesmo nome. Mas Lily era muito astuta, e até ela – sem contar com a incrível capacidade de pensamento cognitivo dos humanos – percebia o óbvio: ela, enquanto cadela da Dona Alda, era muito mais importante e superior a aquele ser deitado no chão, ao qual ninguém dava comida e banho.
Lily foi dormir cheirosa e contente.

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