Você já, algum dia, voltou para sua casa – aquela mesma casa que você viveu os mais recentes anos de sua vida – e sentiu que algo estava fora do lugar? Aí você olha para os móveis, e percebe que eles estão todos onde deveriam estar. E o mesmo acontece com os quadros, os eletrodomésticos, as plantas, as janelas, as cortinas, os livros, os pratos, os copos e os talheres. Tudo esta exatamente onde sempre esteve e onde deveria estar – ao mesmo tempo, você tem certeza que algo esta fora do lugar. E te da uma certa angustia de que você nunca vai descobrir o que está errado.
Bom, claro que não estou falando de minha casa. É apenas uma metáfora. Falo da vida.
Sinceramente, nunca foi minha vontade fazer deste blog (que recentemente virou um projeto de redação, valendo nota e tudo) algum tipo de diário adolescente, aonde eu contaria todas as minhas crises pessoais com textos poéticos e metafóricos, falando do amor, da solidão, da angustia de crescer e de melancolias próprias. Longe disto. Acho isto um clichê que fica, para quem lê, entediante. Não, a idéia deste blog é outra: expor textos com comentários, discussões, hipóteses, análises sobre os mais diversos assuntos cotidianos para que estes – que passam desapercebidos no dia-a-dia ou apenas repetidos pelos discursos prontos– ganhem um pouco de reflexão. Pois é no cotidiano que vive o homem, e nele que nós devemos concentrar nossos esforços para uma vida e – quem sabe – até um mundo melhor. Pensar o cotidiano é, de alguma forma, criticar a si mesmo e buscar mudar. Mas é muita prepotência querer isto de um blog que quase ninguém lê, certo? Concordo plenamente. Mas eu tinha que começar de algum lugar!
Enfim, tudo isto para dizer que este texto vai sair um pouco desta temática. Não sei bem porque – afinal de contas, eu podia simplesmente não escrevê-lo, certo? Mas, a lá Diário Adolescente, vou apelar para algumas metáforas, como aquela que você leu la em cima, para contar uma crise que talvez não tenha o menor significado para alguém que não eu.
Toda esta crise começou quando descobri que iria viajar com minha escola para um acampamento juvenil. Os protagonistas da viajem eram os alunos de 6º a 9º ano, mas eu e outros 7 alunos do terceiro ano iríamos com o papel de monitor – auxiliares dos professores e dos monitores do acampamento. É aquele tipo de coisa que, no começo, eu nem dei muita bola. Mas, conforme foi chegando perto da data comecei a ficar ansioso. E, depois de passar a Páscoa com uma virose bem chata, chegou a data. Ela chegou meio no susto assim – quando me dei conta, tinha que arrumar a mala para partir no dia seguinte, logo depois das aulas. E foi assim, no susto, que eu viajei.
A ida foi nervosa – eu não conhecia praticamente nenhum garoto. Fiquei andando no corredor do ônibus, já que não havia lugar vago para eu sentar, olhando aqueles meninos e meninas contando piadas e rindo de bobeiras, enquanto conversava com a outra monitora, que também não conhecia quase ninguém. Então nos chegamos, uma viajem curta de umas duas horas.
Não sei exatamente quando aconteceu o que. Só se que, na noite do primeiro dia, eu me pegava conversando com os meninos do meu chalé, buscando desenfreadamente seus nomes em minha memória que se esforçava para assimilar 50 rostos. E, quando acordei no dia seguinte, percebi que eles eram demais. Passei a adorar os momentos que ficávamos no chalé, conversávamos na mesa do almoço ou jogávamos algum dos vários jogos que foram propostos. Porque, apesar de ser monitor, eu participava de quase tudo como uma criança. Mergulhei rápido naquela rotina que duraria apenas 3 dias, e me empolguei com aquelas pessoas que há algum tempo dividiam a mesma sala comigo – mas que eu nunca tive a chance de conhecer. Não é louco que você não faça idéia da pessoa que, quinze minutos depois de você sair, entra na sua sala e começa a usar as mesmas carteiras? Conheci moleques simplesmente demais e me lembrei do meu tempo de criança.
Mas então, tão de repente quanto começou, acabou. Porque 3 dias é muito quando você é criança ou pré adolescente, ou pelo menos é o que parece em minhas memórias. Mas, agora, 3 dias parecem nada. Passaram voando e, quando me dei conta, conversava com os meninos no ônibus de volta preso no transito da Teodoro Sampaio. E, quando me despedi rapidamente das crianças e entrei no carro indo para casa, fiquei triste.
Não sei bem do que eu sinto falta. Talvez seja das pessoas mesmo, pois gostei muito delas. Ou talvez seja daquele clima de montanha, que não tem nada haver com São Paulo. Ou quem sabe a falta de responsabilidade que senti quando voltei a ser criança por 3 dias. Ou tudo isto. Mas, parado no sinal vermelho, senti um desespero. Não havia mais montanha, jogos, nem as crianças que surgiram e desapareceram de repente. Acho que eu tinha esquecido de como era São Paulo, e me lembrar me derrubou como um soco no estomago.
Já voltei a 3 dias, e ainda sinto falta de algo. Minha vida esta exatamente como era antes deu viajar – ainda assim, parece que algo esta fora do lugar. Eu bem sei que, daqui a mais alguns dias, isto vai passar. Mas é um sentimento que te confunde e faz pensar. E pensar é perigoso. Mas, com certeza, as vezes é bom viajar e desligar completamente do seu cotidiano. O ruim é voltar.
Prometo que, da próxima vez, largo mão do “diário adolescente” e escrevo um texto mais interessante.
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